02.2026
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Missão arqueológica ou do como sobrevivi ao aviário público

Ou como sobreviver ao “Aviário Público”

Lembram-se daquela frase e daquele momento icónico do Sam Neill, em Jurassic Park, quando ele sussurra, horrorizado: “It’s a bird cage!”?
Pois bem, hoje vivi a minha própria versão de Hollywood — embora sem o orçamento do Spielberg e com muito mais pó acumulado desde a década de oitenta.

Não me enfiei num nevoeiro cerrado na Ilha Sorna, mas vi-me envolta num arquivo público que exala uma fragrância inconfundível. Para os leigos, cheira a mofo. Para os sobreviventes da função pública, é o aroma a gaiola. Aquele cheiro orgânico, persistente e vagamente ameaçador que nos faz questionar se estamos ali para consultar processos ou para participar num safari documental.

Ali, naquele ecossistema pleno de calhamaços que a Kristine, o Leonardo e mais uns quantos “passarinhos” ávidos de burocracia teimam em revisitar, a vida acontece de forma selvagem. Não temos pterodáctilos — felizmente, as estantes metálicas não aguentariam o peso —, mas a fauna é diversificada.

Primeiro, surgem as aves pequeninas e aparentemente inofensivas, uma espécie de pardal de elite cuja raça ainda não consegui identificar, mas que deixa o seu legado delicadamente espalhado pelas capas de cartolina. Depois, claro, temos a plebe: os pombos. Estes não fazem cerimónias. Instalam-se com a confiança de quem é dono do edifício e produzem tamanha — ou maior — porcaria do que os primos pequenos, transformando dossiers em autênticas instalações de arte contemporânea… com um aroma muito menos conceptual.

O cenário é digno de um filme de catástrofe: presentes biológicos proliferam pelas prateleiras e, ocasionalmente, assistimos às consequências de uma revoada de papéis que, num ímpeto de liberdade, tentou voar e acabou por morrer tragicamente contra o fio de ferro das estantes. É um arquivo inundado de história e, por vezes, de águas pluviais, onde o calor humano se mistura com a humidade das infiltrações.

Saí de lá com o cabelo desalinhado, o olfato em choque e a certeza de que, se me tivesse demorado mais cinco minutos, os pombos começariam a carimbar-me as costas como se eu fosse um requerimento pendente.
Afinal, naquela gaiola, quem não voa acaba arquivado.

Se fizer sentido a mais alguém, tanto melhor.
Se não, ainda assim valeu a pena.