Crónica de um blog não anunciado
Este blog não nasceu de um plano.
Nasceu de uma situação inusitada, dessas que parecem insignificantes até começarem a falar dentro de nós.
Um episódio banal.
Um detalhe fora do sítio.
E, de repente, um comentário mental que não se calou.
Não houve anúncio, nem decisão consciente. Houve apenas um pensamento que insistiu. Primeiro frágil, tremelicante, quase envergonhado. Uma frase que se esgueirou entre o estranho e a curiosidade, testou o terreno, ganhou coragem — e ficou.
Depois outra.
E outra.
Do quase nada nasceu qualquer coisa.
E do imprevisto, nasceu isto.
Escrever foi sempre assim: nunca começou como obrigação, nunca se apresentou como projecto. A vontade surgiu muito antes deste blog, embora eu costume dizer que começou na faculdade. Minto. Começou mais cedo, no fim do secundário, quando tropecei no incomensurável Pessoa e me apaixonei. Paixoneta ou não, durou. E ficou.
Entre a dor e o pensamento, entre a leveza do olhar e o desapego possível, surgiram as primeiras letras. Escrevinhei. Escrevinhávamos. Colegas, cúmplices e amigos — juntos, escrevíamos, líamos, declamávamos. Jovens enamorados das palavras, poetas de pensamento, imagem e ânsia. Embriagados pelo néctar copioso e tentador da linguagem.
Éramos poetas adivinhados.
Ainda sem obra, mas já com inquietação.
Ainda sem voz firme, mas com urgência.
A vida passou, como passa. Outras prioridades, outras rotinas, outras distrações. Mas a escrita nunca desapareceu — apenas ficou em estado latente, à espera de um pretexto. Bastou um episódio improvável, um pensamento que não se deixou arquivar, para tudo reaparecer.
Assim nasceu a primeira crónica.
Assim nasceu esta página.
Não para ensinar.
Não para convencer.
Mas para partilhar esse lugar estranho onde o pensamento se forma, hesita e, quando tem sorte, encontra palavras.
Se fizer sentido a mais alguém, tanto melhor.
Se não, ainda assim valeu a pena.

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