02.2026

A reunião que poderia ter sido um e-mail

Há reuniões que não servem para decidir.

Servem para ensinar.

Ensinam como adultos conseguem ser piores do que miúdos na escola.

Chegam atrasados, falam entre si, riem baixinho (ou nem tanto) e mexem no telemóvel com devoção. O responsável pede silêncio, como um professor cansado. Resulta durante trinta segundos.

Depois, o recreio institucional.

Duas horas e meia a discutir o sexo dos anjos com uma seriedade comovente. Comentários longos, ideias vagas, intervenções que não levam a lado nenhum. Tudo muito participado. Nada muito útil.

Perto do fim — sempre perto do fim — alguém finalmente diz algo pertinente. Uma proposta clara. Sensata. Com dois dedos de testa. Algumas cabeças levantam-se. Alguns olhares cruzam-se numa cumplicidade muda: até que enfim.

Mas já não há tempo.

É hora de almoço. Cadeiras começam a arrastar-se. Um tem outra reunião. Outro precisa de sair. Alguém, com a franqueza dos limites físicos, anuncia que tem mesmo de ir fazer xixi. Não pode esperar.

Há quem olhe, quase a implorar: mas agora?

Agora.

E assim termina mais uma reunião exemplar.

Sem decisão. Sem ata. Com a promessa vaga de retomar o assunto — numa próxima reunião.

Que, com alguma ousadia, podia ter sido um email.

Se fizer sentido a mais alguém, tanto melhor.

Se não, ainda assim valeu a pena.