O meu corpo deixou de assinar contratos sem me consultar.
O meu corpo deixou de assinar contratos sem me consultar.
Antes colaborava por defeito. Agora lê as letras pequenas.
Acorda cansado, dorme mal e, quando lhe apetece, introduz uma dor nova só para marcar posição. Não pede autorização. Informa.
Durante anos comportou-se como um funcionário exemplar: fazia horas extra, não reclamava e ainda dava a cara. Hoje exige condições. E, pior, tem memória.
Não é falha.
É consciência tardia.
O corpo já não aceita jornadas absurdas nem heroísmos desnecessários. Não compra narrativas de superação nem alinha em “é só mais esta fase”. Aprendeu que resiliência mal aplicada é apenas teimosia com outro nome.
Não está frágil.
Está criterioso.
Recusa entusiasmos forçados, noites mal dormidas por vaidade e compromissos que não lhe dizem respeito. Não colabora por simpatia nem funciona por hábito.
Às vezes contraria-me os planos.
Mas nunca por capricho.
É um corpo que já percebeu uma coisa simples:
se não se proteger agora, ninguém o fará depois.
E ficou dito.
Se fizer sentido a mais alguém, tanto melhor.
Se não, ainda assim valeu a pena.
